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Sim, eu sou real

Foto do escritor: Adriana Teixeira Alves
Adriana Teixeira Alves
23 de ago.
2 min de leitura

Outro dia me perguntaram se eu sou real.


Pensei em responder alguma coisa profunda sobre existência, consciência e identidade — assuntos que costumam exigir um filósofo, duas xícaras de café e certa disposição para terminar a conversa sabendo menos do que quando começou.


Mas olhei em volta e havia louça na pia. Achei uma prova bastante convincente.


Pessoas imaginárias, suponho, não acumulam pratos para lavar nem mantêm uma pilha de livros em andamento, cada um aberto numa página diferente, numa competição silenciosa para descobrir qual será finalmente terminado.


Também tenho um cronograma de estudos. Ou, mais precisamente, um documento muito organizado com tudo aquilo que eu já deveria ter estudado. Está atrasadíssimo. Em minha defesa, estamos no inverno, e o cobertor tem apresentado argumentos muito melhores que o despertador.


Ainda preciso colocar o lixo para fora, responder mensagens e escolher o livro da próxima viagem — tarefa simples apenas para quem nunca ficou diante da estante tentando decidir entre o que está lendo, o que pretende começar e um terceiro, porque vai que o estado de espírito muda no caminho.


A vida real é cheia dessas decisões de alta complexidade.


Ninguém acorda pensando: “Hoje exercerei plenamente minha condição humana.” A gente acorda pensando que está frio. Depois lembra da louça, do estudo atrasado, dos livros e calcula se ainda dá tempo de cumprir metade do previsto. Com alguma habilidade matemática, metade logo se transforma em “um dia bastante produtivo”.


Talvez ser real seja isso: ter planos organizados e uma vida sem compromisso em obedecê-los.


Portanto, sim. Sou real.


Tenho louça na pia, livros pela metade e um cronograma atrasado para provar.


Francamente, se eu fosse fruto de uma inteligência artificial teria me organizado melhor.



Adriana Teixeira Alves

Quase Tudo Vira Crônica

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