O paciente é o Brasil

Depois de quase três décadas publicando livros sobre a mente humana e de uma longa carreira na psiquiatria, ele resolveu aceitar um caso novo: o Brasil.
Se eleito e reeleito, terá no máximo oito anos.
Será que resolve o nosso caso?
O candidato já escreveu dezenas de livros sobre ansiedade, emoções, pensamentos, sonhos e maneiras de melhorar a vida. Talvez tenha concluído que estava na hora de ampliar o consultório e tentar uma espécie de terapia de grupo.
A própria filha parece ter desconfiado da complexidade do paciente. Contou nas redes que chegou a fazer jejum para que o pai desistisse da candidatura. Não funcionou. O pai seguiu em frente e o vídeo dela alcançou milhões de visualizações.
Foi assim que ele apareceu para mim. Não sei se por obra do algoritmo, do jejum que falhou ou de alguma dessas coincidências que a internet produz com extraordinária eficiência.
Confesso que a candidatura tem certa lógica. Se há um país com ansiedade, pensamentos acelerados, dificuldade de diálogo e problemas de relacionamento, talvez um psiquiatra não seja exatamente o currículo mais estranho que já apresentamos ao cargo.
O problema é que, em política, às vezes tenho a impressão de que a noiva continua sendo a mesma. Mudam o penteado, trocam a aliança, fazem novas promessas e lá vamos nós outra vez para a cerimônia.
Será que, depois de tanto criticada, a autoajuda será a salvação nacional?
Pelo discurso inicial, parece que, depois de décadas estudando a mente humana, o doutor, agora candidato, está convicto de que está diante de um caso relativamente simples: combater a corrupção, readequar o programa que ama a pobreza e financiar o agronegócio. Esse último, pelo menos, parece que receberá bastante incentivo.
Resta saber se oito anos bastam para tratar o Brasil. Se não bastarem, provavelmente faremos o que sabemos fazer: seguiremos o baile ao som de *Éramos Felizes e Não Sabíamos*, de Gaúcho da Fronteira.
Adriana Teixeira Alves
Quase Tudo Vira Crônica



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