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A cliente do cemitério

Foto do escritor: Adriana Teixeira Alves
Adriana Teixeira Alves
23 de ago.
2 min de leitura

Atualizado: 25 de ago.

Um pedreiro me contou certa vez que, depois de anos fazendo casas, muros e reformas de todo tipo, recebeu uma proposta inédita: assentar porcelanato em três gavetas de um cemitério.


Passou semanas em conflito. Dizia não ser supersticioso, mas admitia ter receio dessas coisas. Mortos, assombrações, cemitérios — há medos que a razão nem sempre afasta. Recusar também seria complicado: quem encomendava o serviço era uma pessoa muito querida, próxima da família.


Depois de muito pensar, aceitou. A obra exigia paciência: espaço pequeno, muitos recortes no porcelanato e quase um mês de trabalho.


Com os dias, começou a se acostumar ao ambiente. Até perceber uma senhora muito idosa que, de longe, o observava. Ela não dizia nada. Ele trabalhava, levantava os olhos e lá estava a velhinha.


No começo, imaginou que visitasse um túmulo. Depois, percebeu que ela parecia interessada justamente no serviço.


Então surgiu a dúvida: seria mesmo uma senhora ou alguma outra coisa?


Para tranquilizar a cabeça, criou um teste: “Se ela vier falar comigo, então não é fantasma.”


O problema era que ela não vinha. Continuava de longe, olhando.


Aquilo começou até a interferir no trabalho. Ele só queria terminar e sair dali.


Até que, certo dia, a senhora se aproximou.


Era gente de carne e osso.


E não estava ali por curiosidade. Vinha observando o cuidado, os recortes e o acabamento. Gostara tanto do serviço que queria contratá-lo para fazer outra obra semelhante.


Proposta que ele agradeceu e prontamente recusou. Não por falta de tempo, preço ou dificuldade técnica.


Recusou por razões fantasmagóricas.


Porque uma coisa era descobrir que a velhinha estava viva. Outra, completamente diferente, era continuar fazendo da própria coragem um experimento.



Adriana Teixeira Alves

Quase Tudo Vira Crônica

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