A cliente do cemitério

Atualizado: 25 de ago.
Um pedreiro me contou certa vez que, depois de anos fazendo casas, muros e reformas de todo tipo, recebeu uma proposta inédita: assentar porcelanato em três gavetas de um cemitério.
Passou semanas em conflito. Dizia não ser supersticioso, mas admitia ter receio dessas coisas. Mortos, assombrações, cemitérios — há medos que a razão nem sempre afasta. Recusar também seria complicado: quem encomendava o serviço era uma pessoa muito querida, próxima da família.
Depois de muito pensar, aceitou. A obra exigia paciência: espaço pequeno, muitos recortes no porcelanato e quase um mês de trabalho.
Com os dias, começou a se acostumar ao ambiente. Até perceber uma senhora muito idosa que, de longe, o observava. Ela não dizia nada. Ele trabalhava, levantava os olhos e lá estava a velhinha.
No começo, imaginou que visitasse um túmulo. Depois, percebeu que ela parecia interessada justamente no serviço.
Então surgiu a dúvida: seria mesmo uma senhora ou alguma outra coisa?
Para tranquilizar a cabeça, criou um teste: “Se ela vier falar comigo, então não é fantasma.”
O problema era que ela não vinha. Continuava de longe, olhando.
Aquilo começou até a interferir no trabalho. Ele só queria terminar e sair dali.
Até que, certo dia, a senhora se aproximou.
Era gente de carne e osso.
E não estava ali por curiosidade. Vinha observando o cuidado, os recortes e o acabamento. Gostara tanto do serviço que queria contratá-lo para fazer outra obra semelhante.
Proposta que ele agradeceu e prontamente recusou. Não por falta de tempo, preço ou dificuldade técnica.
Recusou por razões fantasmagóricas.
Porque uma coisa era descobrir que a velhinha estava viva. Outra, completamente diferente, era continuar fazendo da própria coragem um experimento.
Adriana Teixeira Alves
Quase Tudo Vira Crônica



Comentários