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Os caminhos que não levam para casa

Foto do escritor: Adriana Teixeira Alves
Adriana Teixeira Alves
16 de ago.
1 min de leitura

Depois de um dia intenso, com um cansaço que parecia escorrer até pelas vírgulas dos textos, concluí que merecia uma viagem tranquila de retorno para casa. Chamei um aplicativo, sonhando com minutos de silêncio e ar-condicionado.


— Sra. Adriana?


— Sim.


— Em que parte a senhora mora lá?


Respirei fundo. Pensei em dizer que era só seguir a rota indicada pelo aplicativo, mas a educação — essa velha senhora que insiste em sentar no banco da frente — me fez responder com gentileza.


E então veio a enxurrada. Confidenciou-me que tinha uma filha que morava por lá, filhos crescidos do primeiro casamento, uma nova família, um enteado perdido nas drogas. A mãe não sabia o que fazer. Ele também não.


Resignada, mas com aquela empatia que (ainda bem) brota sem convite, eu o ouvia atentamente.


— Como a senhora gosta de conversar… Viu a “limpeza” que a polícia fez no Rio de Janeiro? Deus me perdoe, dona… sinto pena das famílias, mas os traficantes acabam com a vida dos jovens e da gente que não tem nada a ver... A polícia daqui tinha que seguir o exemplo.


Questão polêmica. Achei por bem não me posicionar. Disse apenas: “Pois é.”


Enquanto a cidade passava em luzes borradas pela janela e os faróis viravam pontos de histórias, concluí que o caminho nem sempre nos leva para casa: conduz por fragmentos da vida alheia.


Cheguei ao meu destino. O motorista seguiu em frente com suas angústias — talvez um pouco mais aliviado — pelo mundo que ele compartilhou comigo e que ficou guardado na minha bagagem de mão invisível.


Adriana Teixeira Alves

Quase Tudo Vira Crônica

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