O nosocômio e outros segredos

Direito é complicado. Cheio de palavras difíceis.
Quando não é o latim, são sinônimos raros, daqueles que vivem escondidos no fim dos dicionários, acumulando pó como relíquias esquecidas.
— A decisão é curta, apenas trinta páginas — disse o advogado, folheando o processo com a calma de quem já sobreviveu a documentos infinitos.
— Curta? — espantou-se Joaquim, cliente recente e completamente leigo.
— Sim. No Direito, quase nada tem menos laudas do que isso.
— Será que vou entender? — perguntou Joaquim, franzindo a testa, sentindo que aquelas palavras eram de outra língua, inventada para confundir.
— Vai sim. Vá direto para a última página.
Joaquim obedeceu e leu em voz alta, com cuidado, como quem toca num objeto frágil:
— O autor apresentou as suas contrarrazões ao apelo do nosocômio...
— Não entendi nada. O que é nosocômio? — perguntou, desconfiado.
— É só um jeito chique de dizer “hospital”. Continue — disse o advogado, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— No presente feito, restou incontroverso o direito da parte adversa...
O cliente interrompeu a leitura e fechou o processo devagar. Ainda sem saber se tinha lido um drama jurídico, a sinopse de um romance russo ou simplesmente uma língua inventada, e sentindo que precisaria de um dicionário só para começar.
E, no fim, concluiu com um sorriso resignado: no Direito, a dificuldade não está na lei em si, mas em aprender a falar a língua que os intérpretes inventaram.
Adriana Teixeira Alves
Quase Tudo Vira Crônica



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