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O nosocômio e outros segredos

Foto do escritor: Adriana Teixeira Alves
Adriana Teixeira Alves
16 de ago.
1 min de leitura

Direito é complicado. Cheio de palavras difíceis.

Quando não é o latim, são sinônimos raros, daqueles que vivem escondidos no fim dos dicionários, acumulando pó como relíquias esquecidas.


— A decisão é curta, apenas trinta páginas — disse o advogado, folheando o processo com a calma de quem já sobreviveu a documentos infinitos.


— Curta? — espantou-se Joaquim, cliente recente e completamente leigo.


— Sim. No Direito, quase nada tem menos laudas do que isso.


— Será que vou entender? — perguntou Joaquim, franzindo a testa, sentindo que aquelas palavras eram de outra língua, inventada para confundir.


— Vai sim. Vá direto para a última página.


Joaquim obedeceu e leu em voz alta, com cuidado, como quem toca num objeto frágil:


— O autor apresentou as suas contrarrazões ao apelo do nosocômio...


— Não entendi nada. O que é nosocômio? — perguntou, desconfiado.


— É só um jeito chique de dizer “hospital”. Continue — disse o advogado, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.


— No presente feito, restou incontroverso o direito da parte adversa...


O cliente interrompeu a leitura e fechou o processo devagar. Ainda sem saber se tinha lido um drama jurídico, a sinopse de um romance russo ou simplesmente uma língua inventada, e sentindo que precisaria de um dicionário só para começar.


E, no fim, concluiu com um sorriso resignado: no Direito, a dificuldade não está na lei em si, mas em aprender a falar a língua que os intérpretes inventaram.


Adriana Teixeira Alves

Quase Tudo Vira Crônica

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