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Esmalte nude proibido

Foto do escritor: Adriana Teixeira Alves
Adriana Teixeira Alves
16 de ago.
1 min de leitura

No salão, o secador parecia uma turbina de avião prestes a decolar, quando a cliente da cadeira ao lado, toda envelopada em papel-alumínio, soltou sua conclusão científica:


— Viu? Estamos vivendo uma ditadura!


A manicure nem ergueu a sobrancelha. Continuou lixando a unha com a serenidade de quem já sobreviveu a drama de ex, discussão de condomínio e cliente que jura que “meu cabelo é assim naturalmente”.


Eu, do meu canto, sabia que não valia a pena me manifestar — não por censura, mas por pura autopreservação mesmo.


Ainda assim, precisei fundamentar mentalmente: ditadura não é quando a opinião de muitos é contrariada; é quando um sujeito concentra todo o poder, a imprensa só publica o que o governo autoriza, eleição vira peça de teatro, direitos viram item de museu e o medo circula mais que reels de receita fácil. É um combo completo — a versão premium do autoritarismo.


E, nessas condições, a gente teria até que agir na surdina só para descobrir se o governo liberou alguma cor de esmalte além do carmim da marca X.


É justamente essa liberdade de exagerar, dramatizar, filosofar, rir com vídeos na internet e se distrair — ou até se aborrecer com crônicas como esta — que permite concluir, com certa folga: não. Não estamos numa ditadura.


Adriana Teixeira Alves

Quase Tudo Vira Crônica






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