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Entre autos e vidas

Foto do escritor: Adriana Teixeira Alves
Adriana Teixeira Alves
16 de ago.
2 min de leitura

Ele chegou cedo ao prédio do fórum.

As luzes dos corredores ainda estavam apagadas,

como se o dia também hesitasse em começar.

Ligou o computador.

Na mesa digital, processos aguardavam leitura.

Ia clicar no primeiro da fila quando o telefone tocou.

Era um advogado pedindo prioridade para um caso urgente.


Aos poucos, os colegas foram chegando.

Alguns o cumprimentavam com um aceno breve e um:

— E aí, Tiago, madrugou, hein?

Outros se demoravam um pouco mais,

entre risos cansados do trânsito enfrentado e comentários

sobre a última derrota do time.


Tomou um café.

Leu petições.

Cumpriu prazos.

Lá fora, a vida pulsava complexa.

Ali dentro, tentava caber num despacho.


O primeiro da lista era de uma senhora de 74 anos

que, por uma falha no sistema,

teve sua aposentadoria bloqueada sem explicação.

Enquanto lia, imaginou a cena:

ela na fila do banco,

a surpresa, o medo,

a tentativa de entender aquele erro absurdo.


Casos como o dela se repetiam com outras faces:

uma criança em risco,

um réu ansioso pela sentença,

um alvará de soltura.


Analisou cada processo com o cuidado

de quem sabe que há mais em jogo

do que os autos conseguem mostrar.

Redigiu pareceres com a atenção

de quem reconhece que, por trás de cada procedimento,

existe alguém esperando ser visto.


O sistema exige provas,

referências legais, julgados anteriores.

Mas, às vezes, não enxerga a urgência da vida,

nem sente o peso do que está em risco.


Talvez por isso ele nunca esqueça:

a justiça começa quando se lembra

que cada processo é uma pessoa.

E que o direito e a dignidade

não podem ser apenas objeto de petições e provas.

Precisam ser reconhecidos.


Adriana Teixeira Alves

Quase Tudo Vira Crônica

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