Entre autos e vidas

Ele chegou cedo ao prédio do fórum.
As luzes dos corredores ainda estavam apagadas,
como se o dia também hesitasse em começar.
Ligou o computador.
Na mesa digital, processos aguardavam leitura.
Ia clicar no primeiro da fila quando o telefone tocou.
Era um advogado pedindo prioridade para um caso urgente.
Aos poucos, os colegas foram chegando.
Alguns o cumprimentavam com um aceno breve e um:
— E aí, Tiago, madrugou, hein?
Outros se demoravam um pouco mais,
entre risos cansados do trânsito enfrentado e comentários
sobre a última derrota do time.
Tomou um café.
Leu petições.
Cumpriu prazos.
Lá fora, a vida pulsava complexa.
Ali dentro, tentava caber num despacho.
O primeiro da lista era de uma senhora de 74 anos
que, por uma falha no sistema,
teve sua aposentadoria bloqueada sem explicação.
Enquanto lia, imaginou a cena:
ela na fila do banco,
a surpresa, o medo,
a tentativa de entender aquele erro absurdo.
Casos como o dela se repetiam com outras faces:
uma criança em risco,
um réu ansioso pela sentença,
um alvará de soltura.
Analisou cada processo com o cuidado
de quem sabe que há mais em jogo
do que os autos conseguem mostrar.
Redigiu pareceres com a atenção
de quem reconhece que, por trás de cada procedimento,
existe alguém esperando ser visto.
O sistema exige provas,
referências legais, julgados anteriores.
Mas, às vezes, não enxerga a urgência da vida,
nem sente o peso do que está em risco.
Talvez por isso ele nunca esqueça:
a justiça começa quando se lembra
que cada processo é uma pessoa.
E que o direito e a dignidade
não podem ser apenas objeto de petições e provas.
Precisam ser reconhecidos.
Adriana Teixeira Alves
Quase Tudo Vira Crônica



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