Despacho compulsório

Três dias. Uma viagem. Três aeroportos. E a ilusão de que a bagagem de mão bastaria para atravessar tudo sem excessos.
Não precisava despachar. Mas houve despacho compulsório — como quase tudo na vida que juramos conseguir carregar sozinhos.
Bahia. Cidade Alta. Cidade Baixa. Pelourinho. Elevador Lacerda. Praia da Barra.
A chegada já parecia outra viagem dentro da própria viagem. Para onde olhar quando tudo é novidade? Quando até o trajeto entre o aeroporto e o hotel parece cena de filme ou cartão-postal?
Há cidades que nos recebem com pressa. Outras nos obrigam a desacelerar apenas para observar. Salvador parece fazer isso o tempo inteiro.
A Cidade Alta observa de cima. A Cidade Baixa pulsa embaixo. E o Elevador Lacerda liga muito mais do que dois pontos turísticos: conecta tempos, contrastes e versões diferentes da mesma cidade.
No primeiro almoço, um choque inesperado. Não pela comida, excelente e indicada por uma freguesa antiga. O impacto veio das paredes: uma enorme Mona Lisa nua fumando um charuto.
Mais tarde, na praça, outra surpresa. Uma Cruz Caída. Por um instante, parecia símbolo de tragédia. Mas era marca de protesto e memória.
Curioso como uma viagem revela isso sem esforço: beleza e desconforto quase sempre caminham lado a lado.
No fim, nunca voltamos trazendo apenas lembranças.
Sempre regressamos com alguma coisa fora do lugar dentro da gente.
Adriana Teixeira Alves
Quase Tudo Vira Crônica



Comentários