Convite à retirada

Era um lugar onde tudo funcionava.
Não havia violência, fome, filas intermináveis à espera de atendimento médico, nem fake news ou discursos de ódio circulando pelas redes.
Nas escolas, não havia evasão.
Os alunos eram dedicados, contavam com suporte familiar e tratavam os professores com gentileza. Os professores, valorizados como mereciam, tinham tempo e entusiasmo para preparar aulas envolventes.
Os hospitais não enfrentavam superlotação. As leis eram justas e cumpridas por todos. Os alimentos eram acessíveis a todas as classes sociais. E, por incrível que pareça, o atendimento ao cliente era gentil.
Os animais passeavam livres. As árvores cresciam em paz. Os rios corriam limpos. O clima estava equilibrado, com chuvas fora dos horários de pico — só para não incomodar.
Encantada com o lugar e já um pouco cansada de explorar, procurei alguém para conversar. Mas não havia ninguém. Nenhuma alma viva. Humana, digo.
Foi então que entendi:
O mundo estava perfeito porque nós, os humanos, havíamos sido gentilmente convidados a nos retirar.
Acordei suando frio.
O celular estava ao lado. Passei o dedo rapidamente pela tela e tudo parecia normal.
Ufa. O caos ainda está aqui. E, com ele, a nossa humanidade.
Adriana Teixeira Alves
Quase Tudo Vira Crônica



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