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Candidato a estagiário

Foto do escritor: Adriana Teixeira Alves
Adriana Teixeira Alves
16 de ago.
2 min de leitura

Atualizado: 25 de ago.

Outro dia, no Fórum, tive a felicidade de esbarrar num colega das antigas, da época do cursinho pré-vestibular. Tínhamos pouco tempo, então ele resumiu sua trajetória:


— Vida de estagiário é difícil, Adriana. Agora... vida de candidato a estagiário é quase uma saga épica — só que sem o glamour.


— Me formei. Diploma na mão, OAB no currículo e credenciais no bolso. Achei que seria interessante estagiar para adquirir experiência prática antes de advogar.


— Foi então que comecei a me inscrever em todos os processos seletivos que apareciam.


— Ler edital? Que nada. Passei na OAB. Prova de estagiário... qual dificuldade poderia ter? (Oi, arrogância, pode entrar.)


— Primeira prova. Sala lotada. Gente estudada, empolgada... perdida. Ouvi dizer que muitos faltaram — difícil acreditar.


— A servidora do órgão contratante entrou ofegante, carregando um pacote de provas que parecia pesar os pecados da humanidade, e avisou:


“Desculpem o atraso. Vocês têm três horas. Assinem a lista na saída.”


— Falou com a tranquilidade de quem não ia fazer aquela prova.


— Quando olhei as questões, parecia outro idioma — misturado com latim mal-humorado.


— Uma hora de prova... e metade dos candidatos já tinha ido embora. Segui firme.


— Perseverança? Nada. Puro orgulho mesmo.


— Fiquei pensando no pior: vão publicar minha nota. Que vergonha.


— Cogitei invalidar o gabarito, fingir desmaio, assinar o nome de um candidato concorrente ausente...


— Meia hora para o final, tive um insight — daqueles que até o padroeiro dos advogados bateria palmas.


— Levantei-me confiante, ajeitei o terno, sorrindo como se tivesse gabaritado.


— Na verdade, tinha um plano: entregar a prova em branco.


— Saída de advogado. Vai dizer que não?!


— As notas foram publicadas. O zero dos ausentes se misturava ao zero dos que entregaram em branco: iguais na aritmética da vida.


— Depois dessa, senti-me preparado, agradeci a Santo Ivo e, do zero, iniciei minha carreira na advocacia.


— Nunca descobri o gabarito. Até hoje desconfio que entregar a prova em branco foi a única resposta realmente certa.


Terminada a história, despedimo-nos com os cumprimentos de praxe. E eu, solidária, mantive o segredo — até agora.



Adriana Teixeira Alves

Quase Tudo Vira Crônica

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