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Já somos dois

  • adrianateixeiraalv
  • há 19 horas
  • 2 min de leitura

Por Adriana Teixeira Alves


Será que vale pena continuar?


Escrevo sem saber exatamente para quem. Quer dizer, tenho algumas pistas. Minha mãe lê. Tenho um amigo que também lê, embora às vezes desconfie que seja por amizade, o que compromete um pouco a imparcialidade da pesquisa. E leio eu. Portanto, tecnicamente, tenho público. Pequeno, mas fiel.


Há dias em que publico alguma coisa e fico esperando. Talvez uma multidão comovida ou alguém interrompendo o café para pensar na frase que me custou tempo demais e três versões. Nada acontece. Volta e meia, algum amigo antenado percebe e tenta ajudar.


Diz que eu deveria procurar um nicho novo, fazer algo mais animado, descobrir o que as pessoas querem ver. Não me ofendo. Ouço com atenção as sugestões que vão de dancinhas a piadas sobre as situações comuns. São audaciosas demais para a minha desenvoltura quase zero, sem falar na falta de fotogenia.


Agradeço e considero seriamente por alguns segundos. Mas tenho pouca vocação para dançar diante de uma câmera e, até hoje, nenhuma ida à padaria me pareceu engraçada o suficiente. Volto para os meus textos e livros. Não é rebeldia. É falta de alternativa.


Sigo navegando contra a maré, enquanto uma parte considerável da humanidade parece saber para onde o algoritmo está indo. Eu não sei. Ainda assim, continuo escrevendo.


Há tanta gente falando e tantas palavras atravessando as telas que às vezes me pergunto que diferença fariam as minhas. Provavelmente nenhuma. Isso deveria ser suficiente para eu fechar o caderno. Estranhamente, não é. Basta uma conversa, uma espera ou uma frase ouvida pela metade e lá estou eu pensando que aquilo daria um texto. É um hábito inconveniente.


Começo a pensar que escrever tem menos a ver com a quantidade de pessoas que nos leem e mais com essa incapacidade de passar pela vida sem tentar compreendê-la e registrá-la. Ainda assim, gosto quando alguém lê. Não vou romantizar o anonimato.


Talvez não seja preciso encontrar muitos. Às vezes, uma pessoa basta. Alguém pode nunca ter lido A Metamorfose, de Franz Kafka, mas encontrar numa crônica minha uma porta para aquele mesmo estranhamento diante da vida. Não conhece Gregor Samsa. Ainda assim, reconhece alguma coisa.


Então continuo escrevendo para quem chegar, para quem ficar, para minha mãe, para aquele amigo e para mim, livre como o Gregor  Já somos dois: um amigo e eu.


Minha mãe não sabe ler.



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